O PÃO NOSSO
O pão nosso, que era de cada dia, amanheceu hoje mais
amargo e mais sovado pelos sábios da nossa finança. Abatumado
na nossa paciência secular, seu ingrediente mais sofrido ainda é
o nosso suor, que agora teremos de verter alguns centavos mais ao pé
dos balcões soberanos e insensíveis
Uma vez um poeta cantou que a gente devia subir/subir/até sentir/gosto de lua.
Sonho de poeta, e que o homem aparecia subindo em perfeição até um céu melhor.
Pois hoje o sonho está sendo realizado pelos miraculosos padeiros, que a luz
das lâmpadas amassam esse pão, cuja figura já tem alguma coisa de lunar.
Desde o centro da mesa, exige meu tributo sentimental, bem na hora em que um
fio de sol corta-o em fatias. Peço perdão ao Vietname, do Sul ou do Norte,
porque não posso abstrair a imagem enorme do pão e sofrer com sua gente cujo
arroz deve estar morrendo nos pântanos, porque as bombas não deixam tempo para
a colheita . Perdão ao Vietname, de gente que paga o miserável preço de viver
em terras cobiçadas. Mas não posso fugir ao fascínio do pão, meu confidente
matinal.
A solidariedade encurta os caminhos do mundo, eu sei, mas agora penso em mim. Sei também que a Ernestina roubou um vestido bonito, guardou na bolsa o perfume que sobrou do banho e saiu para agradar seu amiguinho. A polícia, que nada entende de amor, roubou a mágica do encontro, mas foi bem feito: assim aquele fulano aprende a gostar da Ernestina até maltrapilha. Muitas coisas aconteceram, eu sei, mas o pão está no centro da mesa como um pequeno deus, exigindo meu tributo.
Israel Costa
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